Apesar de não dispormos de estatísticas reais sobre o número de cães e gatos que todos os anos são abandonados em Portugal, não fugimos à verdade se dissermos que este fenómeno, triste e vergonhoso para um País que se diz civilizado, atinge largos milhares de animais todos os anos.
As associações de defesa animal que pelo País fora procuram lutar para acolher estes animais são insuficientes para o fazer, tal como não são suficientes os esforços que tantos voluntários e amigos dos animais desenvolvem de forma organizada ou individual. Para muitos cães e gatos que um dia julgaram ser verdadeiramente amados, o abandono significa, de facto, a morte, muitas vezes em condições de enorme sofrimento.
Quem abandona? Porque o faz? Como se pode lutar contra estes actos cometidos no anonimato por pessoas que por vezes durante anos, tiveram um animal de estimação? Perguntas difíceis a que não é fácil responder.
Com quantos destes donos cruéis nos cruzaremos no nosso quotidiano e quantas vezes não pensaremos que são excelentes donos? O abandono de um animal e muitas vezes de um animal doente e idoso, não é de facto facilmente explicável ou compreensível para quem dedica parte da sua vida a tentar proteger os seus direitos, fazendo por cumprir aquilo que já é de Lei, embora tantas vezes ignorado.
As principais causas para o ABANDONO
Os milhares de animais que são ABANDONADOS todos os anos trazem consigo a tristeza nos olhos e têm uma "história" que tenta explicar essa barbárie. Os motivos que mais frequentemente estão associados ao abandono são conhecidos, mas não exaustivos:
- A maior parte dos ABANDONOS ocorrem nos períodos de férias.
Pelo facto de se pensar que não existem muitas alternativas para deixar os animais, os donos optam por se livrarem do empecilho que não iria permitir a estadia neste ou naquele hotel, optando muitas vezes por abrir a porta do carro em movimento, por exemplo na auto-estrada, que o levará ao paraíso prometido e que provocará o inferno ao animal.
Se para os humanos as férias são momentos de alegria, para os animais ABANDONADOS são momentos de terror. A questão que vale a pena colocar é: que tipo de ser humano é que pode saborear umas férias sabendo que cão/gato que ontem era o seu animal de estimação, está naquele momento à sede, fome, ou até ferido/morto? Uma espécie de ser humano que nós não queremos ter certamente como amigo.
- A gravidez da dona do animal é outra causa frequente. A falta de informação e a crença de que os animais são portadores de todo o tipo de doenças e o medo dos perigos de contágio, tornam um animal um alvo a abater.
A maior parte das doenças que os animais podem ter não se transmitem ao homem e mesmo quando são transmissíveis, há cuidados elementares que eliminam o risco de contágio. Para além de que se o animal estiver saudável, com as vacinas em dia e devidamente desparasitado, dificilmente se torna um potencial foco de problemas. Felizmente, milhares de donas esclarecidas, que continuaram normalmente a manter os seus animais de estimação, são a prova real e objectiva de que tanto preconceito não está sustentado em evidências científicas.
- É também frequente o ABANDONO pelo facto de ter existido uma adopção irresponsável sem se ter em conta que a adopção é para a vida toda e que implica um conjunto de obrigações. Acontece muitas vezes que não são ponderados os custos financeiros para fazer face às necessidades de saúde e de alimentação.
Falta de conhecimentos para compreender e corrigir comportamentos dos animais (porque ladram muito, porque não são ensinados a fazer necessidades lá fora, porque marcam território…), significam muitas vezes, mais animais abandonados. É o dono que não sabe, mas quem sofre é o animal. Um exemplo, é a marcação do território por parte dos gatos, que se resolve com a esterilização do gato, mas que em muitos casos teve como consequência, mais um pobre animal abandonado à sua sorte.
A adopção tem que ser pensada nas suas diferentes implicações: as mudanças vão ocorrer e os donos têm que pesar os aspectos negativos e positivos e adoptar em consciência. Para que à primeira contrariedade, o ABANDONO não seja a solução.
Também a caça é madrastra para muitos cães. Com o fim da época da caça, torna-se desnecessário alimentar durante meses um animal que perdeu a sua única utilidade. Por isso tantos cães de raças de caça vagueiam sem norte nesses momentos, quando não têm o azar de ser, num acto de crueldade extrema, atados a arvores para ali morrerem à fome.
Divórcios, mudanças de casa, de País, são também causas de abandono. Também aqui o dono pode e deve encontrar alternativas ou forma de acomodar o animal que é sua responsabilidade na sua nova vida.
Há quem abandone por vaidade. São os donos que vem no seu animal um sinal de estatuto. Se uma outra raça ficar na moda, esta fica descartável. Há que mostrar aos amigos que tal como se compra um carro de ultimo modelo, também se compra uma raça mais gira. É por isso que ao contrário do que muita gente pensa, os animais de raça abandonados, são em elevado número.
A doença e a velhice do animal são, mais uma vez, causas que os podem condenar ao abandono. É verdade que este fenómeno até se verifica entre as próprias pessoas. Isso não deixa de nos levar a considerar que o abandono de um animal nestas circunstâncias, é um acto verdadeiramente bárbaro e demonstrativo da ausência total de sentimentos e de ética, por parte de quem o pratica.
Não podemos esquecer outro tipo de ABANDONO, associado a uma prática que já de si nos permite catalogar os donos destes pobres animais, a das lutas de cães. Não é raro que após a utilização do cão em lutas, quando o animal foi ferido e deixou de ser útil para um novo combate, seja também ele ABANDONADO. E é por isso que se vão encontrando animais moribundos, com feridas graves, principalmente, nos maxilares.
Há ainda o ABANDONO supostamente justificado, que decorre da incapacidade real do dono em continuar a manter o animal. Porque se perde o emprego, porque a doença impede que se trate, porque o dono morre. Ainda assim, mesmos nestes casos o ABANDONO não pode ser a solução. Há que procurar encontrar uma solução junto do grupo de familiares, amigos, divulgando o animal em lojas de animais. Às vezes basta que alguém o possa acolher durante a fase menos boa que o dono atravessa. E se de todo for impossível uma solução deste tipo, as associações de defesa animal tudo farão para apoiar donos responsáveis que por motivos de força maior, reais, são obrigados a separar-se do seu fiel amigo.
As consequências: dor e morte
É triste que o ABANDONO de um animal não esteja previsto na lei como um crime, já que ele tem como consequência a sua morte quase certa, devido aos inúmeros perigos a que o animal fica sujeito e à privação de comida e de bem-estar. Mas a lei prevê a aplicação de multas e sanções e sempre que conhecidos os autores, deve procurar que seja devidamente punido.
Com o ABANDONO os animais perdem todos os seus direitos: Direito a uma alimentação adequada, água limpa, tratamentos médicos e um espaço adequado a um desenvolvimento saudável e equilibrado.
Com o ABANDONO os animais ficam também perdidos, sem as referências que tinham dado como adquiridas: perderam a casa, o conforto, os cheiros que lhes eram familiares, as festas diárias do dono, a voz do dono, enfim perderam o seu porto seguro e encontram-se subitamente perdidos, enxotados para um meio desconhecido e cheio de ameaças.
Perante uma tal mudança, não nos é difícil imaginar como se sentirá o animal: assustado, carente, confuso e, claro, morto de tristeza, sendo muito frequente que fique deprimido ao ponto de, por vezes, deixar de comer.
Porque os animais sentem medo, solidão, tristeza, dor, entre outros que também nós humanos sentimos - o ABANDONO não provoca só os males físicos, provoca também um conjunto de sentimentos confusos que contribuem para a debilidade do animal. Diz-se muitas vezes que a tristeza mata, porque o animal entra em depressão e simplesmente deixa de comer e desiste, mesmo quando por vezes voluntários dedicados se empenham em lhe salvar a vida.
E apesar de não existir margem para qualquer dúvida dos efeitos do acto bárbaro que é o ABANDONO, ainda ouvimos tantas vezes tentativas de explicação para o inexplicável. Por exemplo, que o animal ao ser ABANDONADO desenvolve os seus instintos de sobrevivência e poderá, sem grande esforço, sobreviver e ter uma vida normal no seu meio natural (resta perguntar qual é ele, a rua cheia de movimento?). Na verdade, as pessoas que têm este tipo de alegação esqueceram certamente que o meio, dito natural, já não existe e, bem pelo contrário, existe sim um meio com muitas ameaças, em que sobreviver se torna uma tarefa quase impossível.
Os perigos que os animais têm que enfrentar para tentarem sobreviver são de tal ordem que a esperança de vida é muito reduzida, sendo comum a morte quase imediata por atropelamento. Quantas dezenas de animais cada um de nós vê todos os anos mortos nas nossas estradas, que são feitas de alcatrão e sangue?
Para os animais que conseguem evitar os perigos mais imediatos, como os carros, resta-lhes a luta permanente para obterem comida. Nestes casos o que pode acontecer é uma morte lenta: perda gradual de saúde por falta de alimentação, por contágio de muitas doenças, por feridas mal curadas derivadas de lutas com outros animais e também de maus-tratos provocados pelos humanos.
Os animais ao serem ABANDONADOS ainda têm a triste hipótese de virem a ser recolhidos pelos carros da Câmara, sendo o seu destino a entrada no corredor da morte. Para alguns, é triste ter que o reconhecer, é até uma morte rápida por oposição a uma morte potencialmente mais dolorosa.
Na verdade, apesar de existirem várias campanhas, promovidas normalmente por Associações de defesa dos direitos dos animais, que alertam para a crueldade do ABANDONO de um animal, os comportamentos ainda não mudaram, pois são milhares os portugueses que todos os anos deitam fora o animal que lhe foi sempre fiel.
Os motivos apresentados não são nunca explicação plausível. Tudo se resume a falta de formação, crueldade e insensibilidade, um egoísmo enorme ou então, a falta de consciência das implicações de tal acto. Porque são poucos os animais ABANDONADOS que escapam a uma morte em breve e em condições muito pouco dignas.
Há ainda a considerar outra dimensão deste fenómeno: porque os problemas associados ao ABANDONO são múltiplos e não se restringem aos efeitos directos no animal, têm reflexos, na dificuldade de controlo de natalidade das espécies e na saúde pública.
Quando uma animal é posto na rua e não está esterilizado/castrado deixou de estar em ambientes protegidos e o seu instinto de procriação passa à prática. Em resultado surgem muitas crias de gatos e cães que na sua maioria terão um fim trágico, mas há sempre uma probabilidade de sobreviverem alguns filhotes contribuindo assim de forma excepcional para o aumento da espécie.
A falta de controlo de natalidade que vigora na nossa sociedade aliada ao ABANDONO dos animais provoca com que o problema tenha uma dimensão cada vez maior, provocando mortes e mortes diárias de animais que tiveram o azar de nascer numa época em que os seus direitos ainda não são reconhecidos na prática, mesmo que a lei os salvaguarde.
Os animais ABANDONADOS que conseguem sobreviver algum tempo na rua ficam expostos a doenças e se não forem recolhidos e tratados, sofrem em agonia até ao dia em que a morte os surpreende.
A única forma de resolver este problema é combater o ABANDONO! Resolvendo o problema na origem e não no final de um ciclo penoso, degradante e sinal de uma sociedade subdesenvolvida. Hoje algumas instituições tentam minimizar o problema mas devido a falta de recursos e falta de apoio da sociedade civil não conseguem dignificar a vida de todos os animais que são alvo de ABANDONO. Efectivamente, essas Associações e algumas Câmaras Municipais fazem esforços (anúncios, campanhas, e outras iniciativas que normalmente atingem o seu auge no dia Mundial do Animal a 4 de Novembro) para que os animais ABANDONADOS encontrem um novo dono e desta forma uma esperança de vida. Mas apesar dos esforços os resultados são manifestamente insuficientes devido ao facto de, infelizmente, ser impossível acompanhar o ritmo dos ABANDONOS.
Os animais recolhidos pelas Associações, se não conseguirem uma nova casa, ficam o resto da sua vida numa jaula onde tem condições mínimas de sobrevivência e estão livres de perigo, mas não obtém o conforto de um lar, as atenções e mimos de um dono.
Os animais recolhidos pelas Câmaras Municipais ficam, no mínimo 8 dias, à espera de serem adoptados, sendo este o tempo que lhes resta de vida, pois no final se não tiveram a sorte de ser adoptados são frequentemente abatidos, até porque é preciso lugares vagos para que outros infelizes os venham preencher. São estes os nossos "campos legais de morte". Segundo o Decreto-Lei n.º 314/2003 de 17 de Dezembro decorrido o tempo mínimo as Câmaras Municipais podem dispor livremente dos animais, podendo mesmo ser decidido o seu abate pelo médico veterinário municipal.
O que é que já foi feito para diminuir o ABANDONO
Hoje já existem muitos hotéis para estadia de animais que garantem todas as condições para albergar animais de estimação no momentos em que os donos não podem ficar com os seus animais. Esta opção não é a mais económica, mas hoje já existem muitos hotéis o que significa que o preço tende a ser cada vez menor. Para obter informação sobre hotéis basta contactar uma loja de animais ou então um veterinário.
Existem também serviços de apoio domiciliário garantindo o bem-estar do seu animal no período em que está ausente. Este serviço é garantido com a deslocação das pessoas que irão tratar do animal à própria casa, evitando, assim o stress habitual de mudança temporária de residência provocando o menor transtorno ao animal. Para informações contacte uma qualquer Associação de Defesa dos animais.
Por outro lado, é sempre possível contactar os amigos, verá que pode ficar surpreendido pela disponibilidade demonstrada em ocuparem algum do seu tempo a partilharem uma parte ínfima da vida com os seus animais.
Com o objectivo é diminuir o número de animais abandonados na época das férias, por exemplo, a Câmara Municipal de Lisboa lançou, em 2003, uma campanha de intercâmbio para quem quiser tomar conta dos animais de outras pessoas enquanto estas vão de férias. É uma iniciativa local, mas que pode servir de exemplo para que outras autarquias a sigam ou para que se replique até por vias informais de amigos e voluntários noutras zonas do País.
É consensual que a partir do momento em que seja obrigatório identificar todos os animais (microchip colocado na pele do animais) será possível localizar e responsabilizar o dono assim que os animais sejam encontrados. Após a implementação deste sistema será fácil exigir responsabilidades aos donos e desta forma prevenir o ABANDONO.
Já foram dados alguns passos neste sentido com a publicação dos Dec-Lei nº 313/2003 que Aprova o Sistema de Identificação e Registo de Caninos e Felinos. Ficou estabelecido a obrigatoriedade de identificar, a partir de Junho de 2004, todos os cães perigosos ou potencialmente perigosos e a partir de 2008 a obrigatoriedade de identificar todos os cães que nasçam posteriormente. A data a partir da qual será obrigatório identificar os gatos ainda terá que ser estabelecida, mas tudo indica que será igualmente obrigatório identificar todos os gatos.
É por tudo isto que o acto de adopção de um animal deve ser feito com muita consciência, dado que a partir desse momento, a vida de um ser e as suas condições de saúde e de bem-estar ficam sob a nossa responsabilidade. Não se trata de comprar um objecto, que é posto de lado quando passa de moda. Trata-se de vida, trata-se de aceitar tomar sob a nossa protecção e cuidado, um ser vivo que depende de nós para poder viver. Do início de uma relação em que o animal vai confiar cegamente no humano que o acolheu. Trata-se de uma relação longa e que deve ser "honrada" e sustentada nos fortes laços de amor e confiança.
Não vale a pena iludirmo-nos: não há justificação para o abandono, sejam quais forem os motivos que tentemos encontrar para justificar um acto tão cobarde. O cão ou gato "deitado fora" dessa maneira, vai certamente morrer. Mas quem lhe provoca esse tipo de destino, estará verdadeiramente "vivo"? Dificilmente. Se assim fosse, não conseguiria suportar a imagem do animal abandonado que não conseguiria deixar de ter permanentemente na sua cabeça. Sobretudo, a imagem dolorosa que está no olhar de um animal abandonado
O que é que cada um de nós pode fazer para diminuir o ABANDONO
Se leu este artigo, provavelmente não está no grupo das "pessoas" que abandonam um animal. Esperamos e desejamos que não. O que esperamos de si, é que ajude a combater o abandono.
Não é uma tarefa fácil e os resultados do que fazemos não são palpáveis ou quantificáveis. Como saber se alguma das nossas acções impediu que alguém abandonasse o seu animal? Mas não é menos importante ou necessária por isso. Informar e sensibilizar, actuar de facto quando há uma situação de maus-tratos conhecida no sentido de punir o infractor (e o abandono não é o único tipo de violência praticada sobre animais – com e sem dono – que pode denunciar), são os meios que temos ao nosso dispor para provocar a mudança de mentalidades.
Fazer uma lei é fácil, demora pouco tempo. Alterar comportamentos, preconceitos ou mentalidades, demora por vezes décadas. Para muitos animais, esse é um tempo de que não dispõe.
É por isso que não podemos desistir, baixar os braços e permanecer em silêncio. Basta o silêncio dos animais que não podem falar para defender os seus direitos. Há que travar o abandono. Para que sejam cada vez menos (e não cada vez mais) os animais que todos os anos são deitados fora como lixo. Cada um de nós o está a fazer sempre que sensibiliza os que lhe estão próximos para o flagelo que é o abandono dos animais de estimação. Sempre que não fica parado e denuncia casos concretos de abandono que tenha presenciado. Porque a mudança está a fazer-se, são cada vez mais as pessoas que se preocupam com os animais e com os seus direitos, mas é uma mudança lenta, que exige a nossa perseverança e dedicação. Eles contam connosco.
AZP(2008)
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