A decisão de adotar um animal é sinal, por si só, de uma nobreza de caráter, que se demonstra através da preocupação com o bem-estar de outro ser vivo e da tentativa de o ajudar a superar uma situação difícil e traumática, como o abandono ou os maus-tratos.
Há que considerar, todavia, todos os aspetos de natureza prática relacionados com este importante passo. Apresentamos abaixo as principais perguntas que qualquer candidato à adoção de um animal deverá colocar a si mesmo.
O meu estilo de vida permite-me ter um animal de estimação?
Este aspeto é cada vez mais importante, no mundo tão apressado e exigente em que vivemos. A entrada de um animal na nossa vida tem um impacto considerável. De um momento para o outro, vemo-nos confrontados com as idas à rua (sempre saudáveis mas nem sempre apetecíveis, sobretudo à chuva!), a necessidade de “remodelar” alguma mobília e objetos para evitar acidentes, os pelos que se agarram à roupa e um novo fã daquele sofá maravilhoso no qual gostamos de descansar ao fim do dia.
Qualquer animal de companhia aprecia todo o tempo que lhe dispensarmos. No caso em que ele ou ela passou por situações complicadas, a nossa dedicação e carinho tornam-se ainda mais importantes. Há que pensar na forma de integrar as brincadeiras e os passeios na nossa rotina, não perdendo ainda de vista a necessária educação do nosso novo companheiro.
Importa também perceber até que ponto todos os membros da família estão dispostos a partilhar o seu espaço com um novo amigo e aprender a lidar com ele, mesmo nas ocasiões mais complicadas. É um compromisso a longo prazo.
Apesar dos tempos difíceis que vivemos, uma mudança de ares em tempo de férias é sempre bem-vinda. A partir do momento em que assumimos a responsabilidade de adotar um animal, cabe-nos assegurar o seu bem-estar durante os nossos passeios. Quer o levemos connosco e procuremos um alojamento que o aceite, quer optemos por deixá-lo com alguém de confiança ou num hotel para animais de estimação, trata-se de mais um aspeto a ter em conta nos nossos planos.
Posso suportar os custos que lhe estão associados?
Não será, certamente, algo que passe pela nossa cabeça no momento em que decidimos adotar um animal. Porém, uma atitude responsável implica que tenhamos em conta as despesas futuras: • Alimentação - é variável, consoante se trate de um gato ou cão, dependendo ainda muito do porte do animal e da opção alimentar (ração seca, patés, comida feita em casa) • Saúde - consultas veterinárias, vacinas, medicamentos, etc. • Higiene - shampoo, escovas, areia para gato, etc. • Mantas/agasalhos • Outras - brinquedos, guloseimas
Saberei lidar com ele? As personalidades dos animais domésticos variam bastante. Tratando-se de um animal adotado, as experiências pelas quais já tenha passado terão igualmente uma forte influência no seu comportamento. Deveremos, junto da entidade que promoverá a adoção, procurar informações sobre a personalidade do cão ou gato e os cuidados que deveremos ter no sentido de promover uma boa integração no lar.
Um animal que não tenha sido socializado convenientemente, ou cujas experiências com outros humanos tenham sido traumáticas, poderá mostrar sinais de receio ou desconfiança. Muitas vezes, estes sinais poderão só se manifestar após a adoção, quando é integrado num ambiente que ainda não lhe será familiar. A paciência e compreensão, aliadas à firmeza necessária a assegurar um comportamento aceitável, acabarão por resolver a maior parte das questões desta natureza.
O comportamento esperado do animal, bem como a nossa predileção natural, poderá igualmente contribuir para uma decisão acertada no momento de escolher entre a adoção de um cão ou de um gato. Tipicamente, os gatos terão uma personalidade mais vincada, revelando um maior grau de independência. Os cães, habitualmente mais "chegados" aos donos, acabam também por necessitar de interações (brincadeiras, passeios...) mais frequentes.
Saberei cuidar da sua saúde? Tal como no caso dos humanos, a saúde dos animais de estimação passa, infelizmente, por momentos de menos sorte. Ao assumirmos uma atitude responsável perante a adoção, cabe-nos assegurar que, dentro das nossas possibilidades, proporcionamos ao nosso novo amigo as condições para uma vivência saudável e, em caso de um problema inesperado, os necessários tratamentos veterinários.
Nunca é demais relembrar alguns aspetos essenciais: • Vacinas em dia • Consultas regulares no veterinário • Alimentação adequada (mesmo quando não é essa a vontade dele/dela) • Exercício físico (consoante o animal e o seu porte) • Proteção contra riscos domésticos (eletrodomésticos, objetos afiados, etc.) e exteriores (outros animais, automóveis, etc.)
São, infelizmente, inúmeros os problemas de saúde que podem afligir o nosso cão ou gato. Desde os parasitas até às alergias, importa ter atenção ao seu comportamento. Só nós podemos falar por ele, por isso a melhor forma de esclarecer dúvidas e despistar sintomas estranhos passa por uma conversa com um veterinário de confiança.
Tenho filhos pequenos. Será que se vão dar bem com ele(a)? É muito importante tentar perceber se estamos no momento adequado para adotar um animal, em termos do desenvolvimento físico e psicológicos dos nossos filhos. É, certamente, fantástico crescer com um amigo de quatro patas e estabelecer com ele uma relação marcada pela confiança e carinho. Compete aos pais assegurar que não há perigo nas interações entre a criança e o animal de estimação. Sobretudo nas crianças mais pequenas, há muitas vezes a tendência de segurar e abraçar o animal, como se de um peluche se tratasse. Este comportamento pode magoar os animais mais frágeis. Por outro lado, os dentes de um cão ou as unhas de um gato, apesar de todos os esforços no sentido de os educar, podem provocar ferimentos na criança, por exemplo, no decurso de uma brincadeira mais animada.
À medida que as crianças vão crescendo, o seu grau de responsabilidade aumenta. Cuidar de um animal de estimação pode ser um excelente estímulo para o seu desenvolvimento afetivo e social. É responsabilidade dos pais acompanhar, em especial nos primeiros tempos de convívio, a relação que se vai desenvolvendo entre os seus filhos e o animal de estimação, estando atentos a quaisquer sinais de instabilidade.
Nenhuma destas perguntas passará pela nossa cabeça no momento em que olhamos o gato ou cão nos olhos e decidimos: "Vou levar-te para casa!". A atitude mais responsável e, é claro, menos mágica e emocional, deverá ser tomada antes. E a partir do momento em que decidimos que é a altura ideal para adotar um animal, podemos ter a certeza de que a sua devoção e carinho compensa muito, mesmo muito todos os aspetos mais difíceis que referimos acima.
Voluntário da AZP, Rui Cruz |